Discurso - Alair Corrêa
Sessão:Ordinária
Expediente: Inicial
Responsável: Dep. Taquigrafia Data de Criação: 03/10/2007
Texto do Discurso
O SR ALAIR CORRÊA – Sr. Presidente, Srs. Deputados, tivemos na última semana, precisamente sexta-feira, a presença do Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Município de Cabo Frio para a reinauguração do Aeroporto Internacional de Cabo Frio. Foi a primeira vez que tivemos um Presidente de Estado em nossa cidade, de forma oficial. Para aquela reinauguração, eu havia sido convidado duas vezes pelo Governo do Estado, através de telefonemas recebidos do Sr. Secretário de Governo Wilson Carlos.
Esse aeroporto foi construído por mim, juntamente com o Governo Federal, quando o Presidente era Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Lá recebemos o Sr. Governador Marcello Alencar e entregamos aquele aeroporto à população de Cabo Frio. Mas a história desse aeroporto se estende a tempos mais atrás, pois em 1985 eu consegui com uma grande empresa de Cabo Frio – na época eu era prefeito – uma área de um milhão e quinhentos mil metros quadrados para construir o aeroporto de Cabo Frio.
Aos olhos dos meus adversários e talvez até da população da cidade, ter aquele aeroporto era apenas um sonho que alguém poderia acalentar, até porque já existia o aeroporto de Macaé, um ponto de petróleo, e o aeroporto de Búzios, um ponto turístico. Alguém, naquele momento, não poderia imaginar que nós, em Cabo Frio, pudéssemos ter nosso aeroporto. Havia realmente uma grande indagação. Aos olhos de alguns parecia utópico esse sonho que nós acalentamos durante anos.
Ao sair do Governo em 1988, sem recursos, peguei a escritura daquela grande área e guardei-a comigo, para evitar que meus sucessores, dois prefeitos de Cabo Frio – Ivo Saldanha e Bonifácio –, pudessem pegar aquela área, dividi-la e distribui-la para com a população. Eu acreditava que um dia eu voltaria a ser Prefeito de Cabo Frio e efetivaria aquele sonho, construiria nosso aeroporto, como aconteceu.
Voltei à Prefeitura. Passei por esta Casa de 1994 a 1996 e voltei à Prefeitura. Comecei, então, a alicerçar, a pavimentar aquele caminho que me levaria um dia a efetivar o sonho de 1984.
O Sr. Francisco Pinto era Secretário de Transportes, na época, aqui no Estado. Junto com o Sr. Governador Marcelo Alencar, conseguimos com o governo federal – era presidente o Sr. Fernando Henrique Cardoso e tivemos a ajuda de um dos seus primos que tem residência em Cabo Frio – os valores necessários para a construção daquele grande aeroporto. Em 1998 – em novembro, precisamente –, lá estávamos nós, em um dia de festa, inaugurando o Aeroporto Internacional de Cabo Frio, com uma pista de 1.800 metros, 500 metros maior do que a pista do Santos Dumont, e já sendo o segundo Aeroporto do Estado do Rio de Janeiro.
Temos lá um terminal de cargas atuante, aonde chegam 20 caminhões por dia, que já contribuiu para os cofres do Estado com mais de 450 milhões de dólares passando, em cargas, por ali. Aquele aeroporto precisava da extensão da sua pista e o governo Lula, no seu primeiro mandato, já deixava locados os recursos que viriam a permitir que ampliássemos a pista de 1.800 metros para 2.500 metros. Acabou o meu governo, as obras ficaram paradas por três anos. O terminal de cargas continua atuando, beneficiando este Estado e, finalmente, a pista ficou pronta.
Nós recebemos, sexta-feira, o Sr. Presidente da República, o Sr. Governador do Estado e toda aquela gente convidada pelos três Poderes, o municipal, o estadual e o federal. Deixo aqui o meu protesto pela forma triste como fui tratado naquela oportunidade. Embora tenha sido convidado em duas ocasiões diferentes pelo Secretário de Governo, por ordem do Sr. Governador; embora tenha chegado a Cabo Frio a lista do Cerimonial, com o meu nome, naturalmente, fui impedido de entrar naquela grande obra que eu havia realizado no passado. Quem construiu o aeroporto e o idealizou; quem foi prefeito por três vezes em Cabo Frio, foi deputado duas vezes, foi vereador duas vezes não pode entrar na casa que construiu!
Há uma música, com letra de Luiz Geraldo, que se chama “Cidadão”. Aliás, o slogan da campanha e, agora, do governo do Prefeito de Cabo Frio – que eu irei substituir, se Deus quiser, ano que vem – é “O Cidadão”. A letra dessa música de Luiz Geraldo, que retrata o momento triste que eu vivi naquela oportunidade, diz o seguinte: “Está vendo aquele edifício, moço? Ajudei a levantar. Olho para cima admirado e vem um cidadão que me diz: ‘Está querendo admirar ou está querendo roubar?’” Mais à frente, a letra diz ainda da escola: “Está vendo aquela escola, moço? Eu também trabalhei lá, carreguei massa e cimento e hoje a minha filha quer se matricular, mas criança de pé no chão ali não pode estudar.” Finalmente, vem a terceira etapa da sua letra, quando ele diz: “Está vendo aquela igreja? Eu carreguei o sino e ali eu posso entrar, quando vem Cristo e diz para ele: ‘Moço, deixa de tolice. Não se preocupe com isso porque eu, Deus, fiz a Terra, coloquei água nos rios e fiz as matas e, hoje, o homem em muitas das casas não me deixa entrar.’”
Eu me vi ali, Sr. Presidente, Srs. Deputados, naquela situação. Olhei aquele prédio que eu construí, que eu sonhei. Para construí-lo eu corri gabinetes, ministérios, buscando recursos. Eu o inaugurei, vi aviões pousarem ali trazendo turistas para Cabo Frio, investindo no turismo, facilitando a vida do nosso povo, ali naquele prédio lindo que construí, eu também não pude entrar.
Srs. Deputados, chegou a hora de repensarmos as nossas posições e as nossas ações. Olhem só que desrespeito para com esta Casa, para com este Parlamento, com seu deputado, um homem com mandato, na sua terra, na sua cidade que construiu, que mudou a vida do povo, que transformou ao ponto de ter um slogan de campanha – “O Prefeito que mudou Cabo Frio” – naquele prédio tão bonito que construiu não deixaram ele entrar.
O SR. COMTE BITTENCOURT – V. Excelência me concede um aparte?
O SR. ALAIR CORRÊA – Concedo o aparte ao Sr. Deputado Comte Bittencourt.
O SR. COMTE BITTENCOURT – Sr. Deputado Alair Corrêa, independente de qualquer posição que o meu partido possa ter na questão eleitoral de Cabo Frio, quero hipotecar total solidariedade ao seu pronunciamento, em nome do meu mandato e da bancada do PPS nesta Casa, porque conhecemos a folha de serviços que V. Exa. tem para com a cidade de Cabo Frio, e acima de tudo V. Exa. é um deputado estadual. V. Exa. ser impedido de entrar numa solenidade pública, não estão impedindo o Sr. Deputado Alair Corrêa, estão impedindo um representante da população do Estado do Rio de Janeiro.
Eu proponho a V. Exa. que encaminhe à Mesa desta Casa, ao Sr. Deputado Jorge Picciani, solicitação de medidas enérgicas, seja através de uma moção de repúdio, a quem organizou essa festa em nome do Parlamento estadual, seja através até de uma ação de questionamento.
Quero hipotecar total solidariedade a V. Exa. e tenha certeza que o PPS irá apoiar qualquer iniciativa que venha corrigir tamanha injustiça, deselegância e diria até, inconstitucionalidade, ao proibir um deputado de participar de uma solenidade num espaço público.
Muito obrigado.
O SR. ALAIR CORRÊA – Muito obrigado, Sr. Deputado Comte Bittencourt.
A pequenez das pessoas que querem fazer política neste Estado e em nosso município é de alarmar, é de preocupar. Tirar o nome de um deputado, não falo nem dos meus 80 mil votos; falo do meu mandato dado pela população, dos três mandatos de Prefeito, do aeroporto que eu construí, que eu entreguei à população, que chegava de madrugada olhando as máquinas pavimentarem aquele futuro tempo que Cabo Frio teria a partir daquela obra. E, no entanto, os policiais abrem as mãos e me dizem: “O seu nome não está na relação, o senhor não pode entrar, o cerimonial não colocou o seu nome”.
Eu vivi ali, talvez, um dos piores momentos da minha vida pública, porque eu não tinha experimentado esse momento de ser barrado em algum lugar, de ser impedido de entrar em algum lugar. Claro que, na letra de Luiz Geraldo, Deus fala que até em muitas casas dos homens ele não pode entrar. E ele construiu tudo, e naquela letra ele fala também da escola que ele construiu, que carregou massa, pôs cimento e o seu filho por que está descalço não pode ali estudar, ou se olha para o prédio que ele construiu estão pensando que ele quer roubar. Esse é o tempo que estamos vivendo.
Deixo aqui o meu repúdio. Agradeço ao Sr. Deputado Comte Bittencourt por suas palavras. Todo o povo de Cabo Frio acompanhou de longe, porque lá tem três televisões, canais de TV a cabo, uma TV fechada. Todos acompanharam aquele triste momento, pequeno, do Prefeito, das pessoas que organizaram esse cerimonial no Estado ou no Governo Federal, não permitindo que o seu criador, o seu construtor pudesse entrar.
Eu sei que meu tempo está encerrando. Quero só pedir ao Sr. Presidente mais um minuto para cumprimentar o sociólogo José Corrêa Batista pelo livro lançado ontem, numa noite de autógrafos, “A Longa Marcha”, onde ele conta a história de Cabo Frio e na história política de Cabo Frio, naturalmente está constando a minha própria história. Esse livro fala da minha história, da história de todos os políticos. Acho que ele veio em um momento talvez para salvar, ainda um pouco, do que existe de bom na política cabo-friense.
Que essas coisas ruins realmente sejam abominadas, sepultadas da vida pública de minha cidade, de meu Estado e de meu País.



